Diário de uma escrava, de Rô Mierling

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"E eu fico ali, chorando e sabendo que faz mais de quatro anos que fui sequestrada e a polícia não deve mais estar à minha procura. O único que sabe onde eu estou é aquele homem nojento que me estupra todo dia e a quem chamo de Ogro."

Laura era uma adolescente de quinze anos quando foi sequestrada. Alguns dias depois de notar que um homem estranho a observava na porta da escola e mesmo na igreja, a garota foi raptada quando pretendia se encontrar com o namorado. Ursinha, apelido dado a ela pelos pais, passou a ser a forma com o Ogro, seu sequestrador, lhe chamava. Entre abusos sexuais e psicológicos, quatro anos se passaram. Laura já não era a mesma. 

A garota foi presa em um buraco no fundo de um quarto da casa do Ogro, de onde saía apenas para tomar banho, o que ocorria cerca de uma vez por semana. Nesse espaço, havia apenas um colchão, um balde para que ela realizasse suas necessidades fisiológicas e um livro que foi relido inúmeras vezes. Todos os dias, o homem que a mantinha em cativeiro levava as suas refeições e a estuprava. Após tanto tempo de sofrimento, a jovem já achava difícil lembrar das coisas boas da sua antiga vida. No entanto, a sua vontade de fugir não se esgotava. Infelizmente, lhe faltavam oportunidades para abandonar o Ogro.


Diário de uma escrava, apesar do título e do formato em que é escrito, funciona mais como um caderno de memórias, no qual são contadas as lembranças de Laura dos vários anos em que foi mantida como escrava sexual. A protagonista narra as condições do ambiente em que é mantida e também os constantes abusos cometidos pelo seu sequestrador, portanto, o livro possui diversas cenas de estupro bastante descritivas, trechos que incomodam o leitor. Em meio as narrações dos seus dias, Laura comenta sobre sua vida antes de ter sido raptada, sobre sua relação com os pais, amigos e o namorado, e durante essas passagens ela insiste no fato de ainda ser virgem aos quinze anos, reforçando isso diversas vezes, pois queria se guardar para o grande amor.

Apesar das tristes situações retratadas na trama, a leitura é ágil, já que o livro é dividido em sete capítulos que são subdivididos em dias ou momentos específicos da vida da personagem principal. Por volta da página 100, a minha sensação era de que a autora tinha uma boa intenção com essa história, mas que não tinha conseguido ir muito longe. Em dado momento ela resolve apresentar o Ogro e retrata outras garotas que foram sequestradas por ele, sendo que todos os casos são muito previsíveis, de modo que parecem apenas um amontoado de avisos de atitudes que não deveriam ser cometidas pelas jovens para que elas não corressem o risco de se tornar uma Laura da vida. No entanto, ao chegar na página 140, percebi que na verdade se tratava de uma história de muito mau gosto.


[ESSA PARTE PODE CONTER ALGUNS SPOILERS]

A partir de um certo ponto, a protagonista começa a dar sinais de que está se conformando com a vida de escrava sexual. Aos poucos, seus planos de fuga vão diminuindo e ela começa a pensar sobre como as coisas seriam caso ela conseguisse escapar do cativeiro. Laura passa a acreditar que ninguém mais espera por ela, que suas amigas não gostariam de conviver com uma pessoa que enfrentou anos de estupros e violência, que não haveria mais lugar para ela no local em que ela vivia. Mais para o final do livro, a jovem começa a depositar suas esperanças em Mauro, seu namorado da época em que foi sequestrada, acreditando que ele terá mantido suas juras de amor. Acontece que em determinadas circunstâncias ela vê esse rapaz com uma outra mulher e acaba desistindo de vez de escapar. 

Com essa falta de confiança na possibilidade de fugir e retornar à vida que tinha antes, a protagonista começa a observar os comportamentos do seu sequestrador sob outra perspectiva, passando a acreditar nos seus "Eu te amo, Ursinha" e "Eu sou tudo o que você tem", desconsiderando todos os anos em que ele a manteve presa em um buraco em péssimas condições e todos os abusos praticados por ele, não só com ela, mas com todas as garotas que passaram por aquela casa. Resumidamente, Laura perde a vontade de viver como um ser humano e passa a aceitar as imposições do Ogro, além de começar a auxiliar o homem em outros sequestros. Essa mudança de pensamento e de atitude é justificada pela autora nas notas finais como um exemplo da Síndrome de Estocolmo, através da qual algumas pessoas passam a ter simpatia ou mesmo amor pelos seus agressores. Acontece que percebendo as atitudes cometidas pela personagem e, principalmente, as últimas páginas do seu diário, é possível notar que não foi esse estado que lhe ocorreu. Na verdade, Laura se conformou e aceitou sua "nova vida". 

Além disso, no último capítulo do livro é introduzido um personagem inútil para a história. Daniel é um policial que, diferentemente do restante da sua equipe, não desistiu do caso do Maníaco das Donzelas, nome atribuído ao sequestrador de Laura. Ele insiste nas investigações, por mais que as pistas tenham diminuído e seja praticamente impossível localizar esse homem. Inicialmente, com a sua aparição, eu pensei que a autora poderia ter criado esse personagem para que ele resgatasse a protagonista. Mas o que de fato acontece é que ele acaba abandonando o caso, assim como os seus colegas de trabalho. Logo, ele também reforça a ideia de conformidade com essa situação. 

[FIM DOS POSSÍVEIS SPOILERS]


Confesso que fiquei muito desapontada com o rumo que a trama tomou. Apesar de não estar com grandes expectativas em relação à obra, pois já tinha visto alguns comentários negativos sobre, eu esperava que a autora soubesse utilizar essa proposta de falar sobre um assunto que precisa ser discutido e que poderia ter um ótimo resultado ou pelo menos tivesse uma boa intenção com o livro, por mais que ele não fosse tão bem desenvolvido. O problema é que, como eu disse anteriormente, Diário de uma escrava se trata de uma história de muito mau gosto. Durante o seu desenvolvimento, parece que a Rô Mierling gostaria de alertar as garotas, principalmente as que estão entrando na adolescência, de que é perigoso conversar com estranhos na internet ou aceitar propostas oferecidas por pessoas desconhecidas, coisas do tipo. Entretanto, a transformação sofrida pela protagonista é revoltante e, principalmente no final do livro, passa uma ideia muito errada para os leitores. 

Outro ponto que me incomodou envolve um pouco a divulgação do livro. Durante todo o processo de propaganda de Diário de uma escrava são relatados números sobre os casos de desaparecidos no Brasil, informando a quantidade de menores de idade que somem e de garotas que são destinadas a fins sexuais. Porém, nas notas finais do livro, a autora compartilha os casos que lhe serviram de inspiração para a criação da história de Laura e todos eles ocorreram em diferentes locais do mundo, menos no Brasil. Claro que o contexto das pessoas sequestradas com esse propósito é semelhante, mas poderia ter sido feita uma maior pesquisa sobre essa realidade no nosso país ou a divulgação da obra poderia ter sido diferente. 

Sendo assim, Diário de uma escrava é um dos poucos livros que eu realmente não recomendo. A autora tinha uma boa premissa nas mãos, mas acabou optando por desenvolver uma história mau intencionada, que transmite pensamentos ruins e ideias incorretas acerca da maneira como as pessoas devem lidar com a questão dos desaparecimentos e dos abusos sexuais. 


Minha Estante #86
Título: Diário de uma escrava
Autor (a): Rô Mierling
Páginas: 240
Editora: DarkSide Books
Nota: 1/5
Onde comprar: Amazon | Americanas | Saraiva | Submarino
Livro cedido em parceria com a editora


Já leram Diário de uma Escrava? O que acharam? Me contem nos comentários! 
Beijos e até o próximo post!

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4 comentários

  1. Oi, Gabrielle!
    Eu também me decepcionei muito com a história. Realmente a autora se perdeu legal.
    Acredita que eu nem lembrava desse policial?
    Beijos
    Balaio de Babados

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    Respostas
    1. Oi, Luiza! Pois é, esse personagem foi muito desnecessário. Beijos ♥

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  2. NOSSA QUE DESGRAÇA, li o título e fiquei toda animadenha, mas perdi a vontade de ler :( Pelo que você escreveu, também achei uma história de muito mal gosto. Que pena, porque poderia ser um livro bom.
    Cheiro de Pipoca

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A autora poderia ter desenvolvido uma história muito interessante, mas acabou seguindo um rumo de bastante mau gosto, infelizmente. Beijos ♥

      Excluir

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